Jeff Santos – on the road
6 de junho de 2017

Sobre Alex Honnold e o (im)possível

Treino na dificílima rota Freerider. Foto: Jimmy Chin / National Geographic.

Ícone mundial da escalada, Alex Honnold, 31, conquistou, no dia 3 de junho, a incrível façanha de chegar ao topo do El Capitan, em pouco menos de 4 horas, sem cordas, sem qualquer proteção – usando apenas os pés, bem acomodados em um par de sapatilhas próprias para a função, e as mãos, utilizadas como ganchos (ou seriam garras do Wolverine?), com a ajuda de magnésio em pó para aumentar a aderência.

O feito fez com que ele se tornasse o primeiro nome a subir os 914 metros da rocha, pela via Freerider, sem cordas ou qualquer outro equipamento de segurança (o famoso free solo). Das maiores conquistas da história da escalada em rocha. Fim.

El Capitan, localizada no Parque Nacional do Yosemite, na Califórnia (EUA), é um fetiche para os alpinistas, sendo considerada uma das mais desafiadoras paredes para os amantes do esporte. É missão quase impossível até mesmo para quem escolhe usar todo o equipamento necessário para o desafio. Pela subida, várias rachaduras e espaços mínimos para apoiar os pés e se segurar pelas mãos.

A histórica escalada de Honnold começou cedinho, mais precisamente às 5h32 da manhã, e foi finalizada às 9h28. Foram exatas 3 horas e 56 minutos de subida, desde a base da rocha até o seu topo.

Na noite anterior, o desbravador, nascido em Sacramento, na Califórnia, descansou em sua base móvel, um furgão-casa, onde mora e com o qual leva uma vida nômade, sempre em busca dos grandes paredões mundo afora. O Parque Nacional do Yosemite é o lugar em que costuma passar a maior parte de seu tempo, para realizar seus treinos e escaladas.

No topo do El Capitan, depois de quase quatro horas de escalada. Foto: Jimmy Chin / National Geographic

Você sabe, não é de hoje que o espírito desafiador de Honnold dá as caras. Em seu currículo, constam outras conquistas tão importantes e arriscadas quanto essa, como ter sido o primeiro a subir os 650 metros do Half Dome, em sua modalidade, o free solo. Na ocasião, o que uma pessoa “comum” levaria cerca de três dias para fazer, o então garoto, na época com 23 anos, fez em pouco menos de três míseras horas. No mesmo esquema: sem cordas, sem proteção.

Naquele mesmo ano (2008), ele já havia desafiado os limites da natureza ao completar a via Moonlight Buttress, no Zion National Park. Algo já considerado insano e que ressignificou o conceito de escalada no mundo.

Subir o El Capitan era o sonho de sua vida. E essa escolha parece ser uma raridade no meio do esporte. Poucos escaladores consideraram, pra valer, a ideia de realizar esse feito sem qualquer proteção. Na escassa lista dos nomes que se arriscariam na rocha, estão os de Michael Reardon, escalador de free solo falecido em 2007, após uma queda no mar na Irlanda, e o de Dean Potter, que também teve uma morte trágica em um salto de base jump, em 2015. Outros poucos manifestaram o real desejo.

Mas para realizar esse sonho, foi preciso muito treino e preparação. Vale contar que essa não foi a primeira tentativa de Honnold. Em novembro do ano passado, ele iniciou o processo, mas interrompeu ao sentir que as condições não estavam boas. Abre parênteses: se tem uma coisa que a gente aprende com esses caras, tirando a coragem, claro, já que o risco é indescritível, é a Sabedoria (assim mesmo, com letra maiúscula). Saber a hora de parar é tão corajoso quanto seguir até o fim. E essa segurança na vida só é possível quando existe equilíbrio pleno entre técnica (treino) e feeling (autoconhecimento). Fecha parênteses.  

A sua dedicação é admirável e incrivelmente detalhada. Em um diário, ele costuma registrar suas atividades e o desempenho em cada uma delas. Em seu treinamento, estão incluídas sessões diárias, de uma hora, em que fica pendurado na ponta dos dedos, aprimorando sua resistência. Ele também costuma memorizar a sequência exata da colocação dos pés e das mãos a cada avançada.

Pra você ter uma ideia de como tudo é muito bem preparado, ele já havia feito a mesma via em outras três oportunidades, a princípio usando equipamento para ganhar segurança e, depois, para checar suas marcações na parede de pedra.  

Disciplina, foco e observação. Palavras-chave para uma conquista como essa. Foto: Jimmy Chin / National Geographic

Força nos dedos (e em todo o corpo), flexibilidade, resistência. Estar atento aos fatores ambientais (de olho no vento, no sol e na possibilidade de chuvas repentinas). Se manter calmo. Controlar o medo. Manter o foco.  

O sucesso dessa iniciativa só foi possível por conta de toda essa disciplina. E ao que tudo indica, Honnold vai dar um tempo de desafios tão arriscados como esse. Mas, sabemos, quem está acostumado a romper limites sempre busca por desafios cada vez maiores. Não nos surpreenderemos quando seu nome voltar a ser citado realizando mais uma loucura como essa.

Vamos em frente.  

 

Assista as primeiras imagens da escalada, feitas pela equipe de Jimmy Chin. Um documentário será lançado, em breve, pela National Geographic.

FONTES E LINKS

Para acessar as sensações e os pensamentos de Alex antes, durante e depois da escalada, vale ler essa entrevista, feita logo após a conquista, clica

Matéria (bastante detalhada) publicada também no site da National Geographic: aqui.

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